Autores:
A. Filipa Gonçalves, Interna de Formação Específica em Medicina Geral e Familiar, USF Araceti
Ângela Santos Neves, Assistente de Medicina Geral e Familiar, USF Araceti
A vacina contra o papilomavírus humano (HPV) está incluída no Programa Nacional de Vacinação (PNV) para as raparigas de 10 anos e desde outubro de 2020, passou, também, a estar incluída para os rapazes nascidos a partir de 2009, sendo que ambos os sexos podem ser infetados por este mesmo vírus.
A primovacinação apresenta grande impacto na redução da doença tanto no início da adolescência como em idade adulta, prevenindo lesões benignas e malignas.
Os papilomavírus são vírus de ácido desoxirribonucléico (DNA) que constituem o género Papillomavirus da família Papillomaviridae. O HPV infeta apenas humanos.
A transmissão de HPV é feita por contato direto, pele e mucosas, em particular da área genital e perianal. O vírus é inoculado por manipulação dos genitais e área perianal pelas mãos, sexo oral, vaginal ou anal, pelo que a eficácia da utilização de preservativo na prevenção desta doença é mais baixa do que para outras infeções sexualmente transmissíveis. Atividades sexuais de maior risco incluem a utilização de brinquedos sexuais entre vários parceiros, sexo entre homens que tem sexo com homens, sexo em grupo e não utilização de preservativo.
A infeção por HPV pode ser assintomática e autolimitada, contudo, a seroconversão é baixa após a primo-infeção e a recorrência de infeção pode surgir em ambos os sexos. O espetro da doença é grande desde lesões benignas, como o caso de papilomas e verrugas, a lesões pré-malignas e cancro. O HPV é um importante carcinogénico no homem e na mulher, causando lesões pré-neoplásicas e neoplásicas do colo do útero, cancro do pénis, anorretal, cervical e orofaringe.
Tipos de HPV
Foram identificados mais de 130 tipos diferentes de HPV, sendo que mais de 40 são conhecidos por afetar o colo do útero, e aproximadamente 15 podem causar cancro colo do útero (CCU). Os tipos de HPV foram identificados como sendo de alto ou baixo risco de causar CCU:
Vacina disponível em Portugal. Atualmente existe apenas a vacina Gardasil®9 contra o HPV disponíveis em Portugal, uma vacina nonavalente que protege contra 9 tipos de HPV (6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58).
A vacinação consiste na prevenção, a longo prazo, do CCU, cancro do pénis, anorretal, cervical e orofaringe. A prevenção a médio prazo abrange as lesões precursoras e a prevenção a curto prazo, funciona como uma redução considerável dos resultados citológicos cervicais anómalos e respetivos procedimentos diagnósticos e terapêuticos.
Estudos demonstraram que a vacinação adjuvante contra o HPV no cenário de excisão cirúrgica para neoplasia intraepitelial cervical 2 ou superior está associada a um risco reduzido de displasia cervical recorrente em geral e uma redução no risco de lesões recorrentes causadas pela maioria dos tipos de VLP (HPV 16,18). [6]
A vacina contra o HPV é administrada por via intramuscular, não é uma vacina viva, o uso de contracetivos hormonais não tem influência na resposta imunológica e existe a possibilidade de ser administrada em simultâneo ou em qualquer altura, antes ou após vacinas vivas ou inativadas. Não está recomendada na gravidez e a vacina nonavalente pode ser administrada durante a amamentação.
Desde outubro de 2020, o PNV alargou a vacinação contra o HPV aos rapazes. Todos os jovens até aos 26 anos que não tenham completado o esquema de vacinação, poderão fazê-lo gratuitamente.
* Se a 2ª dose for administrada antes do 5º mês após a 1ª dose, deve ser administrada uma 3ª dose;
** Se necessário a 2ª dose pode ser administrada no 1 mês após a 1ª e a 3ª dose 3 meses após a 2ª dose;
As 3 doses devem ser administradas no período de 1 ano.
A Gardasil®9 apresenta:
Imunogenicidade não-inferior à Gardasil® em raparigas dos 9 aos 15 anos, mulheres e homens dos 16 aos 26 anos de idade;
Demonstração de eficácia contra infeção persistente e doença associada aos tipos 31, 33, 45, 52 e 58 de HPV em raparigas e mulheres dos 16 aos 26 anos de idade;
Demonstração de imunogenicidade não-inferior contra os tipos de HPV de Gardasil®9 em rapazes e raparigas dos 9 aos 15 anos e homens dos 16 aos 26 anos de idade, comparada com raparigas e mulheres dos 16-26 anos de idade.
Os restantes cinco tipos de HPV incluídos na vacina Gardasil®9 não estão diretamente envolvidos na maioria nos cancros ligados aos homens, de modo que não existe um benefício adicional significativo nos rapazes já vacinados com Gardasil® realizarem novo esquema com Gardasil®9.
A melhor altura para a administração da vacina é antes do início da atividade sexual, ou seja, antes da exposição ao HPV, altura do máximo benefício potencial. No entanto, dado o elevado risco de reinfeção, poderá existir benefício na vacinação de indivíduos previamente infetados.
Foi demonstrada eficácia vacinal em mulheres mais velhas e aquelas com história de infeção ou lesão prévia ao HPV, bem como em homens.
Mulheres não vacinadas no PNV;
Mulheres com lesões cervicais pré-malignas;
Em homens com mais de 26 anos ponderar a vacinação a título individual de forma a prevenir as lesões associadas ao HPV;
Dado o elevado risco de reinfeção, poderá existir benefício na vacinação de indivíduos previamente infetados.
A Gardasil®9 é imunogénica, eficaz e tem um bom perfil de segurança e tolerabilidade. Os efeitos secundários mais comuns são reações no local da injeção, como dor ligeira, eritema, síncope, tonturas, náusea, cefaleias, reações de hipersensibilidade e urticária. Não estão documentados efeitos adversos graves.
- A vacina pode ser administrada a mulheres que amamentam;
- A vacina não está indicada durante a gravidez;
- Se a mulher engravidar no decurso da vacinação, deve interromper o esquema e retomar a(s) dose(s) restante(s) depois do parto;
- O esquema das 3 doses deve ser idealmente cumprido no período de um ano;
- Não foram observados efeitos adversos durante a gravidez, mas os dados não são conclusivos.
- A associação entre a exposição periconcecional ou na gravidez à vacina contra o HPV e o aborto espontâneo ainda é incerta, e pesquisas adicionais são necessárias para avaliar o impacto da exposição da vacinação contra o HPV no aborto espontâneo.[7]
Pode ser administrada em simultâneo com outras vacinas, em locais anatómicos diferentes ou no mesmo membro, desde que distanciadas 2,5 a 5 cm.
Os adolescentes, por desenvolverem comportamentos exploratórios de natureza sexual, acabam por se tornar particularmente propensos à primo-infeção por HPV, e desenvolverem lesões benignas e malignas por HPV a médio e longo prazo. O método mais eficaz para a sua prevenção é a vacinação, relembrando os adolescentes mais velhos nascidos antes de 2009 - fora do âmbito de PNV.
1 - Recomendações sobre Vacinas Extra Programa Nacional de Vacinação – setembro 2020
2 - Consenso Nacional sobre vacinas contra HPV 2017
3 - Palefsky J, “Human papillomavirus infections: Epidemiology anddisease associations” UpToDate, 2022 https://www.uptodate.com/contents/human-papillomavirus-infections-epidemiology-and-disease-associations
4 - Cox J, Palefsky J, “Human papillomavirus vaccination” UpToDate, 2023 https://www.uptodate.com/contents/human-papillomavirus-vaccination
5 - RCM Gardasil®9. https://www.ema.europa.eu/en/documents/product-information/gardasil-9-epar-productinformation_pt.pdf
6 - Lichter K, Krause D, Xu J, Tsai SHL, Hage C, Weston E, Eke A, Levinson K. Adjuvant Human Papillomavirus Vaccine to Reduce Recurrent Cervical Dysplasia in Unvaccinated Women: A Systematic Review and Meta-analysis. Obstet Gynecol. 2020 May;135(5):1070-1083. doi: 10.1097/AOG.0000000000003833. Erratum in: Obstet Gynecol. 2020 Jun;135(6):1489. PMID: 32282601.
7 - Yan X, Li H, Song B, Huang G, Chang Q, Wang D and Yan P (2023) Association of periconceptional or pregnancy exposure of HPV vaccination and adverse pregnancy outcomes: a systematic review and meta-analysis with trial sequential analysis. Front. Pharmacol. 14:1181919. doi: 10.3389/fphar.2023.1181919
Deixe a sua sugestão
spma.spp.2000@gmail.com
Ligações úteis
Sociedade Portuguesa de Medicina do Adolescente
Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
GSK
Siga-nos
Uma iniciativa de:
Apoio:
Este conteúdo é da exclusiva responsabilidade da SPMA e da APMGF.